Uma corda de escalada, teoricamente perfeita

Artigo publicado originalmente em climbing.com por Brendan Blanchard

Cordas de escalada tem evoluído bastante ao longo do tempo, desde os tempos da corda de sisal. Uma corda dinâmica de nylon moderna vai suportar a queda de um escalador suavemente, absorvendo as forças sem descarregar grandes forças em todo o sistema, e vai durar bastante tempo. Fazem décadas que as cordas modernas de fios trançados chegou ao mercado, e não houveram grandes mudanças desde então. Mas ela pode ser melhorada? O que faria uma corda perfeita? Um novo estudo realizado por uma equipe da Universidade de Utah tenta responder essas questões, e sugere que poderá haver cordas mais suaves no futuro.

O Estudo, publicado no The Journal of Sports Engineering and Technology, identifica as principais características de uma corda de escalada ideal e provaram no papel que tal tipo de corda pode existir. O time determinou que a corda ideal deverá segurar o escalador enquanto descarrega o mínimo possível de carga no sistema em um período de tempo e absorve praticamente toda a energia da queda. Essas duas características também significam que a corda poderia proporcionar uma absorção perfeita sem muitos efeitos no escalador ou no sistema.

A ideia surgiu de Justin Boyer, um estudante de mestrado da classe de modelismo matemático do Dr.Graeme Milton. Milton tem PhD em física pela Universidade Cornell, como também passou algum tempo no prestigiado Courant Institute of Mathematical Sciences. Atualmente Milton trabalha como um renomado professor de matemática da universidade de Utah, na cidade de Salt Lake, para onde ele se mudou em 1994 para estar mais perto das trilhas, ski, ciclismo e canionismo. No entanto, Milton não escala, Boyer e o assistente da graduação trevor Dick são escaladores. O time se uniu a Davit Harutyunuan que desenvolveu a prova matemática de que a “corda ideal” existe.

O estudo focou no lado matemático da “corda ideal”, mostrando que o comportamento mais importante, mínimo de impacto e máximo de absorção, de fato existem em conjunto. No papel, pesquisadores olharam uma série complexa de equações que são indecifráveis para uma pessoa comum. Para uma explicação simples, Milton compara o comportamento ideal de uma corda com a frenagem em um carro.

“Se você frear no último instante, você provavelmente sentira um desconforto”, ele comenta. “Mas se você aplica uma frenagem constante ao longo do tempo, você evitará esse desconforto”, em outras palavras, uma vez que a corda começa a “pegar” a queda de um escalador, ela deveria sofrer uma força de frenagem constante até que a corda alcance a sua dilatação máxima, então a corda deveria retrair lentamente até o seu tamanho normal, ao invés de dar um solavanco de voltar.

Enquanto não existe nenhum material que possa alcançar as características ideais dos pesquisadores, eles veem potencial em materiais com memória de formato, que são usados em uma variedade de produtos, desde tacos de golfe até lâminas de helicóptero. O estudo citou muitos benefícios em potencial, variando de alongamento da corda a distância das quedas para a redução da carga máxima no escalador ou em qualquer parte do sistema  de uma ancoragem ou de uma “segue”. Uma corda feita de fios com memória de formato poderia aplicar uma força de blocagem constante com 8% de alongamento e apenas se estender entre o montanhista e o mosquetão mais próximo. Em comparação, as cordas que usamos hoje esticarão até 15% em todo o comprimento, desde o parceiro de escalada até o escalador guia. A corda com memória de formato poderia travar uma distância muito menor enquanto alcançava os mesmos picos de força em um escalador.

Talvez um dos maiores benefícios seja a durabilidade desses materiais. As cordas modernas encolhem, ficam mais duras e produzem menos suavidade na absorção de quedas com o tempo, mas os fios com memória de formato atuais podem evitar milhões de deformações antes que elas estejam suscetíveis a falha.

 Claro que isso tudo é um mundo teórico. Enquanto materiais com memória de formato que atendem os requisitos dos pesquisadores não existem, não é aplicável ao mundo da escalada. O material que iria criar a corda matematicamente ideal para a escalada ainda não existe, e os materiais existentes são extremamente caros, tornando o projeto inviável. Por exemplo, fios feitos de Nitinol, um material com memória de formato construído de nickel e titanium, custa 500 Dólares por metro. Materiais com memória de formato podem ter outros contras, assim como baixa qualidade para a fabricação de nós, alto peso e propriedades que dependam da temperatura ambiente. Uma solução pode ser combinar materiais com memória de formato com os materiais atualmente utilizados nas cordas.

Milton não levou o resultado das pesquisas da sua equipe para nenhuma fabricante de material outdoor desde que publicou o estudo, mas os autores esperam que atraia o interesse dos desenvolvedores de materiais. Uma corda de escalada ideal poderia ter outras aplicações industriais que poderiam viabilizar o estudo e o investimento necessário para o seu desenvolvimento. Por exemplo, o estudo sugere que poderia ser usado como uma amarração para liberar uma carga de um helicóptero sem a necessidade de um paraquedas.

“os materiais que você realmente quer com essas características ainda não existem”ele comenta. “mas se você disser algo como: Isso é o que realmente nos gostaríamos!, então poderiam aparecer fabricantes de materiais para produzirem-na”

PROPRIEDADES DE UMA CORDA DE ESCALADA TEORICAMENTE IDEAL

  • Menor impacto no escalador e no sistema em geral;
  • Frenagem gradual, sem paradas abruptas que podem causar lesões;
  • A corda deve retornar ao tamanho ideal lentamente, evitando solavancos;
  • Menor alongamento dinamico, fazendo com que o escalador tenha menos chances de se machucar na queda;
  • Maior durabilidade, possibilitando milhões de deformações sem danificar a corda;
  • Alongamento não uniforme, permitindo que a corda se alongue apenas entre o escalador e o último mosquetão, reduzindo assim o tamanho da queda.

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